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Foi uma confusão indescritível; uns anunciavam que o movimento indicava a volta próxima do Messias, que o millenium havia chegado, e que o fim deste mundo perverso estava próximo, etc. Naturalmente, os diferentes cleros das mil e tantas seitas ocuparam-se da questão; os padres católicos, julgando-se os mais fortes, confiantes e com grandes reforços de hissopes, vieram exorcizar os Espíritos e as mesas caprizantes. Mas as mesas possessas faziam coro e respondiam amém às orações exorcistas. O efeito era nulo: a água benta da Idade Média havia-se deteriorado! A família Fox, que não quis submeter-se e que se considerava encarregada da missão de espalhar o conhecimento desses fenômenos, foi expulsa da Igreja Episcopal Metodista. Ela refugiou-se em Rochester por causa da perseguição do Espírito batedor, que continuava, com menos sem-cerimônia ainda, a perturbar o seu lar. Mas em Rochester, cuja população carola como a de todas as cidades da América reparte-se em multidão de seitas, houve perseguições de outro gênero e, desta vez, devidas à maldade dos vivos. O povo amotinou-se contra os Fox; estes se ofereceram para dar uma prova pública dos fenômenos em presença da população de Rochester reunida na maior sala da cidade, em Corynthian Hall. A primeira conferência espírita foi recebida com vaias e assobios; não obstante, depois de um desses tumultos que parecem ser o apanágio das reuniões públicas anarquistas, nomearam uma comissão. Após o mais minucioso exame, contra a geral expectativa, contra sua própria expectativa, a comissão concluiu pela realidade dos fenômenos anunciados. Mal satisfeitos, os cidadãos de Rochester elegeram segunda comissão, que foi mais rigorosa ainda do que a precedente. Os médiuns, isto é, as meninas Fox, foram revistadas e até despidas por comissários femininos: segundo relatório, ainda mais favorável do que o precedente. A indicação dos habitantes de Rochester exacerbara-se e, por insistência, uma terceira comissão foi nomeada, compondo-se de pessoas das mais incrédulas e escarnecedoras. As investigações foram ainda mais ultrajantes para as pobres mocinhas; mas, humi-lhada, a comissão foi obrigada a proclamar que Rochester não tinha razão. A exasperação dos populares era indescritível; falava-se de linchar médiuns e comissários e, quando a leitura do relatório da comissão foi feita sobre o estrado do Corynthian Hall, a família Fox, seus amigos e os comissários só deveram a sua salvação, segundo a Sra. Hardinge, à interferência de um qualquer, chamado George Willets, que, em razão do caráter pacífico de sua religião, tinha nessas circunstâncias dramáticas uma autoridade particular. O qualquer George Willets postou-se arrogantemente no alto do estrado, em frente da multidão que o ia invadir, e “declarou que a quadrilha de bandidos que queria linchar as duas raparigas só o conseguiria passando sobre o cadáver dele!” Pouco faltou para que o Espiritismo, em seu começo, contasse por mártires os seus primeiros apóstolos. Seja qual for a opinião professada nesta matéria, o espetáculo dessas mocinhas, quase sofrendo o martírio dessa multidão exasperada por algumas pancadas e movimentos inexplicáveis de uma mesa, provoca a comoção. Além do interesse apresentado pelo fato, sob o ponto de vista da história do Espiritismo, pareceu-nos que havia ali um documento humano, como se diz hoje, merecendo as honras de uma menção especial.

                     

Como é natural, a curiosidade, o atrativo do maravilhoso também concorrendo, todos quiseram ver; a população, na América do Norte, interessou-se pela nova doutrina, parte no intuito de combatê-la, parte no de sustentá-la. Enquanto os homens sérios e particularmente os sábios de todas as ordens não se pronunciavam, muita gente, que não sabe ter opinião por si mesma, manteve-se reservada. Mas desde o dia em que a discussão atingiu as alturas de um debate científico, a questão mudou de aspecto e pode-se dizer que imediatamente a América do Norte se achou literalmente submersa pelas ondas do Espiritismo. Primeiramente, o juiz Edmonds publicou um trabalho sobre investigações que ele empreendera com idéia de demonstrar a falsidade dos fenômenos espíritas. O resultado final foi diametralmente oposto ao que o autor primitivamente se propusera. Em seguida, o sábio Mapes, professor de Química na Universidade, depois de “repelir desdenhosamente as coisas”, foi obrigado a convir “que elas nada tinham de comum com o acaso, a fraude ou a ilusão”. Chegou a vez do Dr. Hare, professor da Universidade de Pensilvânia, que publicou uma obra cuja repercussão foi considerável. Robert Hare instituiu uma série de experiências muito engenhosas, demonstrando que em ausência de toda a pressão efetiva, só por aposição dos dedos de um médium, o instrumento com o qual o professor experimentava acusava um aumento de peso de muitas libras. Assim, como veremos mais tarde, o professor Crookes, de Londres, repetiu essas experiências e reconheceu-lhes rigorosa exatidão! Um sábio e original escritor, portador de nome bem conhecido dos que se ocupam da questão social, Robert Dale Owen, filho do famoso Robert Owen, da Inglaterra, publicou um livro sobre o mesmo assunto, onde se encontra grande quantidade de fatos realmente muito curiosos, para não empregar a expressão de extraordinários. Mas essa obra é de data quase recente e foi escrita em momento em que relativa calma se produzira nos espíritos. É mister recuar-se mais para ter um resumo das proporções que atingiu a agitação provocada nos primeiros tempos pela questão do moderno Espiritualismo na livre América. De 1850 a 1860, só se falava nisso em toda parte; as sociedades sábias examinavam, os clérigos discutiam, os homens de letras, os advogados, todo o mundo, em uma palavra, agitava-se e... injuriava-se. Foi a coisa a tal ponto que o Conselho Legislativo do Alabama, para lançar um pouco de água fria sobre a efervescência epidêmica que se apoderara dos cérebros norte-americanos, votou uma resolução (bill) decretando que toda pessoa disposta a entregar-se às manifestações espiritualistas seria condenada a pagar uma multa de 500 dólares. Não lembra isto o famoso *De part le Roy defense à Dieu De faire miracle en ce lieu! * * (Por ordem do rei, fica Deus proibido de fazer milagres neste lugar.) dos convulsionários de Saint-Medard? Pena foi que o governador tivesse recusado sancionar a lei adotada pela legislatura do Alabama; este marco falta-nos para indicar a grande excitação que assinalou a história do moderno Espiritualismo, em 1860. Enfim, já é bonito ver-se uma assembléia eleita, composta de homens graves, ditando uma medida calcada em um draconismo tão cômico. Se quiséssemos acompanhar o Espiritismo, desde 1860 até a hora atual, entraríamos em seguida na exposição das pesquisas que foram feitas sobre esta matéria por diferentes sábios, mas prometemos demonstrar que o Espiritismo é velho como o mundo; devemos, pois, retrogradando, fazer a nossa demonstração; isto nos levará provavelmente a provar ligeiramente que o mundo é muito mais velho do que geralmente se pensa.




                             

A História do Espiritismo, pelo Dr.Paul Gibier:

Foi em dezembro de 1847, segundo um autor norte-americano, que uma família de origem alemã, a família Fox – cujo nome primitivo (Voss) havia sido americanizado – veio estabelecer-se em um povoado chamado Hydesville. Essa aldeia está situada no condado de Wayne, circunscrição de Arcádia, nos Estados Unidos. A família Fox compunha-se do pai e da mãe, John fox, sua mulher e três filhas. Os nomes das duas mais novas meninas Fox ficaram célebres na História. Uma, Margarida, tinha 15 anos; a outra, Kate, tinha apenas 12. As pessoas que compunham a família Fox pertenciam à Igreja Episcopal Metodista, da qual eram, diz a Sra. Hardinge(Historiadora Espírita), “membros exemplares e incapazes de merecerem a suspeita de fraude ou duplicidade”. Alguns dias depois que se instalaram em sua nova residência de Hydesville, fatos extraordinários, cuja intensidade foi crescendo, produziram-se na casa. Ouviram-se, conta a Sra. Emma Hardinge, pancadas nas paredes, no soalho e peças vizinhas, etc. Às vezes, estando a família reunida para a refeição da noite, fazia-se grande rumor no quarto de dormir das meninas; todos corriam a inteirar-se da causa do barulho; se bem que portas e janelas estivessem hermeticamente fechadas, não encontravam ninguém, mas os móveis estavam de pernas para o ar ou misturados uns com os outros! Esses móveis, mesmo em presença da família, eram agitados por movimento oscilatório como se estivessem sacudidos sobre as ondas. Esse fato sucedia principalmente com o leito das meninas. Os Fox viam sua mobília mover-se como se estivesse animada de vida especial; ouviam-se passos no soalho. As meninas sentiam mãos invisíveis correndo sobre seus corpos; estas mãos eram quase sempre frias. Sucedia também que as meninas experimentassem a sensação de um grande cão a esfregar-se de encontro à sua cama. Freqüentemente, durante a noite, John Fox levantava-se acompanhado da mulher e, seguido das meninas Fox, rodeava sua propriedade, procurando surpreender os vizinhos trocistas, que, segundo pensavam, eram os autores das perturbações trazidas, à noite, por essas desordens que tanto tinham de insólitas como de desagradáveis. Como já se terá adivinhado, nenhum vestígio se descobria que indicasse a passagem de um ser humano.

Enfim, em fevereiro de 1848, a vida tornara-se insuportável na casa habitada pela família Fox(foto ao lado); seus integrantes passavam as noites sem dormir, e até os dias não eram isentos de perturbação. Durante todo o mês de março, ouviram-se os mesmos ruídos com variação de intensidade, mas a 31 de março de 1848 elas foram mais fortes do que de costume. Pela centésima vez, John Fox e a Sra. Fox fizeram trancar as portas e janelas, investigando a procedência dos rumores; mas eis que um fato novo e inteiramente inesperado se revela: ouvem-se sons imitando manifestamente, e como por zombaria, os sons produzidos por portas e janelas, que eram abertas e fechadas! Desta vez havia motivo para perder-se a cabeça. A mais nova das meninas, a pequena Kate Fox, vendo que esses ruídos não lhe ocasionavam mal algum, acabara por familiarizar-se com eles e como, naturalmente, os atribuíam ao diabo, a menina Fox, sentindo-se sem dúvida com a consciência pura, tinha chegado a caçoar com o seu autor, a quem ela chamava o Sr. Pé-de-cabra. Uma noite, fazendo estalar os dedos certo número de vezes, ela disse ao invisível barulhento: – Fazei como eu, Sr. Pé-de-cabra. E instantaneamente o mesmo ruído foi repetido semelhante a outras tantas vezes. A menina fez ainda alguns movimentos com o dedo e o polegar, mas devagarinho, e, com grande surpresa sua, foi dado o número de pancadas igual ao número de movimentos que ela havia executado silenciosamente. – Minha mãe! – exclamou ela – atenção! ele vê e ouve! A Sra. Fox, tão maravilhada como sua filha, disse ao misterioso companheiro: “Conte até dez”, e dez pancadas foram ouvidas. Foram feitas muitas perguntas, que tiveram respostas exatas. A pergunta: “Sois homem?” não teve resposta, mas muitas pancadas claras soaram quando indagaram: “Sois espírito?” Com permissão do invisível visitante foram chamados os vizinhos, e grande parte da noite passou-se em fazer as mesmas experiências, com os mesmos resultados. Tal é a origem, o ponto de partida do moderno Espiritualismo, “a primeira comunicação – diz Eugène Nus, em uma obra da qual teremos ocasião de falar mais de uma vez – estabelecida por uma menina de doze anos com esse fenômeno que devia em breve invadir a América e a Europa, negado pela Ciência, explorado por charlatães, ridiculizado pelos jornais, anatematizado pelas religiões, condenado pela justiça, tendo contra si todo o mundo oficial, mas por si esta força mais poderosa do que tudo: o atrativo do maravilhoso.” Assim, acabou-se por verificar que esses ruídos eram produzidos por um agente invisível e que esse agente se dava por um Espírito. Restava descobrir o meio de comunicar com tal Espírito; mas isso não tardou, e como se as bases do Espiritismo devessem simultaneamente estabelecer-se, dentro de poucos dias foram descobertas a mediunidade e o meio de comunicação entre este mundo material e o mundo espiritual, com o auxílio do spiritual telegraph, isto é, por meio dos rappings, ou pancadas, indicando as letras do alfabeto. A descoberta da mediunidade resultou do fato de observar-se que os exercícios dos Espíritos executavam-se mais freqüentemente em presença das Srtas. Fox e principalmente por meio da mais moça: Kate Fox.

verificou-se que, graças a certas forças magnéticas, alguns indivíduos possuíam a característica de médiuns, o qual era recusado ao comum dos mortais, e que essa característica, ou antes essa força especial, diferia extremamente segundo os indivíduos que a possuíam, e que era muito sensível às diversas emoções morais que a fazem variar de intensidade em um mesmo indivíduo. Resultaria também das observações feitas desde os primeiros momentos, por meio das comunicações ou mensagens, que esse movimento espírita, isto é, a inauguração dessas comunicações entre os habitantes dos dois mundos, foi preparado por Espíritos científicos e filosóficos que, durante sua existência sobre a Terra, se haviam ocupado especialmente de pesquisas sobre a eletricidade e sobre diversos outros fluidos imponderáveis. À testa desses Espíritos achava-se Benjamim Franklin(foto acima), que freqüentemente, dizem, deu instruções para explicar o fenômeno, e indicou a maneira de aperfeiçoar, de desenvolver as vias de comunicação entre os vivos e os mortos. Numerosos Espíritos, tanto para dar uma nova demonstração do fenômeno como atraídos por afeições de família, dizem, vieram trazer provas irrefutáveis de sua identidade, anunciar que continuavam a viver, mas sob outra forma, que amavam sempre e que, da esfera mais feliz onde estavam colocados, velavam pelos que choravam sua morte, desempenhando, por alguma forma, junto deles, o papel de anjos de guarda. Os círculos, os harmoniosos meetings, recomendados pelos Espíritos, constituíram-se depressa e numerosos médiuns revelaram-se. As práticas espíritas espalharam-se como um rastilho de pólvora; mas não faltaram desgostos e nem tudo foi felicidade nas famílias dos médiuns. Não raramente os spiritual circles eram invadidos por fanáticos de diferentes seitas, e cenas selvagens acompanharam essas irrupções, nas quais houve a deplorar violências, grosserias e absurdos de toda espécie.


Allan Kardec, o contato com os fenômenos e "O Livro dos Espíritos".
                                   Extraído do Livro "Obras Póstumas"

Foi em 1854 que pela primeira vez ouvi falar das mesas girantes. Encontrei um dia o magnetizador, Senhor Fortier, a quem eu conhecia desde muito tempo e que me disse: Já sabe da singular propriedade que se acaba de des-cobrir no Magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas que se podem magnetizar, mas também as mesas,conseguindo-se que elas girem e caminhem à vontade. — “É, com efeito, muito singular, respondi; mas, a rigor, isso não me parece radicalmente impossível. O fluido magnéti-co, que é uma espécie de eletricidade, pode perfeitamente atuar sobre os corpos inertes e fazer que eles se movam.” Os relatos, que os jornais publicaram, de experiências fei-tas em Nantes, em Marselha e em algumas outras cidades, não permitiam dúvidas acerca da realidade do fenômeno.



Algum tempo depois, encontrei-me novamente com o Sr. Fortier, que me disse: Temos uma coisa muito mais extraordinária; não só se consegue que uma mesa se mova, magnetizando-a, como também que fale. Interrogada, ela responde. — Isto agora, repliquei-lhe, é outra questão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula. Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto para fazer-nos dormir em pé.

Era lógico este raciocínio: eu concebia o movimento por efeito de uma força mecânica, mas, ignorando a causa e a lei do fenômeno, afigurava-se-me absurdo atribuir-se inteligência a uma coisa puramente material. Achava-me na posição dos incrédulos atuais, que negam porque ape-nas vêem um fato que não compreendem. Há 50 anos, se a alguém dissessem, pura e simplesmente, que se podia trans-mitir um despacho telegráfico a 500 léguas e receber a res-posta dentro de uma hora, esse alguém se riria e não teriam faltado excelentes razões científicas para provar que semelhante coisa era materialmente impossível. Hoje, quan-do já se conhece a lei da eletricidade, isso a ninguém es-panta, nem sequer ao camponês. O mesmo se dá com to-dos os fenômenos espíritas. Para quem quer que não conheça a lei que os rege, eles parecem sobrenaturais, ma-ravilhosos e, por conseguinte, impossíveis e ridículos. Uma vez conhecida a lei, desaparece a maravilha, o fato deixa de ter o que repugne à razão, porque se prende à possibilidade de ele produzir-se.

Eu estava, pois, diante de um fato inexplicado, apa-rentemente contrário às leis da Natureza e que a minha razão repelia. Ainda nada vira, nem observara; as experiên-cias, realizadas em presença de pessoas honradas e dignas de fé, confirmavam a minha opinião, quanto à possibilidade do efeito puramente material; a idéia, porém, de uma mesa falanteainda não me entrara na mente.


No ano seguinte, estávamos em começo de 1855, encontrei-me com o Sr. Carlotti, amigo de 25 anos, que me falou daqueles fenômenos durante cerca de uma hora, com o entusiasmo que consagrava a todas as idéias novas. Ele era corso, de temperamento ardoroso e enérgico e eu sem-pre lhe apreciara as qualidades que distinguem uma gran-de e bela alma, porém desconfiava da sua exaltação. Foi o primeiro que me falou na intervenção dos Espíritos e me contou tantas coisas surpreendentes que, longe de me con-vencer, aumentou-me as dúvidas. Um dia, o senhor será dos nossos, concluiu. Não direi que não, respondi-lhe; veremos isso mais tarde.

Passado algum tempo, pelo mês de maio de 1855, fui à casa da sonâmbula Sra. Roger, em companhia do Sr. Fortier, seu magnetizador. Lá encontrei o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison, que daqueles fenômenos me falaram no mesmo sentido em que o Sr. Carlotti se pronunciara, mas em tom muito diverso. O Sr. Pâtier era funcionário público, já de certa idade, muito instruído, de caráter grave, frio e calmo; sua linguagem pausada, isenta de todo entusiasmo, produziu em mim viva impressão e, quando me convidou a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, à rua Grange-Batelière, 18, aceitei imediatamente. A reunião foi marcada para terça-feira 1 de maio às oito horas da noite.

Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Assisti então a alguns ensaios, muito imperfeitos, de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Mi-nhas idéias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessariamente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.

Bem depressa, ocasião se me ofereceu de observar mais atentamente os fatos, como ainda o não fizera. Numa das reuniões da Sra. Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin, que residia então à rua Rochechouart. O Sr. Baudin me convidou para assistir às sessões hebdomadárias que se realizavam em sua casa e às quais me tornei desde logo muito assíduo. Eram bastante numerosas essas reuniões; além dos freqüentadores habituais, admitiam-se todos os que solicitavam permissão para assistir a elas. Os médiuns eram as duas senhoritas Baudin, que escreviam numa ardósia com o auxílio de uma cesta, chamada carrapetae que se encontra descrita em O Livro dos Médiuns. Esse processo, que exi-ge o concurso de duas pessoas, exclui toda possibilidade de intromissão das idéias do médium. Aí, tive ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas formuladas, algumas vezes, até, a perguntas mentais, que acusavam, de modo evidente, a intervenção de uma inteligência estranha.

Eram geralmente frívolos os assuntos tratados. Os as-sistentes se ocupavam, principalmente, de coisas respeitantes à vida material, ao futuro, numa palavra, de coisas que nada tinham de realmente sério; a curiosidade e o divertimento eram os móveis capitais de todos. Dava o nome de Zéfiro o Espírito que costumava manifestar-se, nome perfeitamente acorde com o seu caráter e com o da reunião. Entretanto, era muito bom e se dissera protetor da família. Se com freqüência fazia rir, também sabia, quando preciso, dar ponderados conselhos e manejar, se ensejo se apresentava, o epigrama, espirituoso e mordaz. Relacionamo-nos de pronto e ele me ofereceu constantes provas de grande simpatia. Não era um Espíritomuito adiantado, porém, mais tarde, assistido por Espíritos superiores, me auxiliou nos meus trabalhos. Depois, disse que tinha de reencarnar e dele não mais ouvi falar.

Foi nessas reuniões que comecei os meus estudos sé-rios de Espiritismo, menos, ainda, por meio de revelações, do que de observações. Apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia conseqüências; dos efeitos procurava remon-tar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde a ida-de de 15 a 16 anos. Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenôme-nos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu pro-curara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas idéias e nas crenças; fazia-se mister, portan-to, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.

Um dos primeiros resultados que colhi das minhas ob-servações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adianta-mento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opi-nião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.

O simples fato da comunicação com os Espíritos, dis-sessem eles o que dissessem, provava a existência do mun-do invisível ambiente. Já era um ponto essencial, um imenso campo aberto às nossas explorações, a chave de inúmeros fenômenos até então inexplicados. O segundo ponto, não menos importante, era que aquela comunicação permitia se conhecessem o estado desse mundo, seus costumes, se assim nos podemos exprimir. Vi logo que cada Espírito, em virtude da sua posição pessoal e de seus conhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus de todas as classes, não podendo um só, individualmente, informar-nos de tudo. Compete ao obser-vador formar o conjunto, por meio dos documentos colhi-dos de diferentes lados, colecionados, coordenados e com-parados uns com outros. Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados.

Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui. Até ali, as sessões em casa do Sr. Baudin nenhum fim determinado tinham tido. Tentei lá obter a resolução dos problemas que me interessavam, do ponto de vista da Filo-sofia, da Psicologia e da natureza do mundo invisível. Leva-va para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. Eram sempre respondidas com precisão, profundeza e lógica. A partir de então, as sessões assumiram caráter muito diverso. Entre os assistentes con-tavam-se pessoas sérias, que tomaram por elas vivo inte-resse e, se me acontecia faltar, ficavam sem saberem o que fazer. As perguntas fúteis haviam perdido, para a maioria, todo atrativo. Eu, a princípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo constituía um todo e ga-nhava as proporções de uma doutrina, tive a idéia de publi-car os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Foram aquelas mesmas questões que, sucessivamente de-senvolvidas e completadas, constituíram a base de O Livro dos Espíritos.

No ano seguinte, em 1856, freqüentei ao mesmo tem-po as reuniões espíritas que se celebravam à rua Tiquetone, em casa do Sr. Roustan e Srta. Japhet, sonâmbula. Eram sérias essas reuniões e se realizavam com ordem. As comu-nicações eram transmitidas por intermédio da Srta. Japhet, médium, com auxílio da cesta de bico.

Estava concluído, em grande parte, o meu trabalho e tinha as proporções de um livro. Eu, porém, fazia questão de submetê-lo ao exame de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns. Lembrei-me de fazer dele objeto de estudo nas reuniões do Sr. Roustan. Ao cabo de algumas sessões, disseram os Espíritos que preferiam revê-lo na in-timidade e marcaram para tal efeito certos dias nos quais eu trabalharia em particular com a Srta. Japhet, a fim de fazê-lo com mais calma e também de evitar as indiscrições e os comentários prematuros do público. Não me contentei, entretanto, com essa verificação; os Espíritos assim mo haviam recomendado. Tendo-me as cir-cunstâncias posto em relação com outros médiuns, sem-pre que se apresentava ocasião eu a aproveitava para pro-por algumas das questões que me pareciam mais espinhosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publici-dade em 18 de abril de 1857.